domingo, 9 de maio de 2010

Sobre o Aborto

Ontem, sábado, foi dia de palestra do centro espírita que frequento aqui em Aracaju. A palestrante, muito sábia, muito eloquente, sempre nos presenteia com suas palavras tão cheias de significado para nossas vidas. Começou falando sobre a importância da figura de Maria de Nazaré na véspera do Dia das Mães. Segundo ela relata, existe um grande grupo de espíritos benfazejos chamados Legião dos Servos de Maria, que auxiliam na recuperação de espíritos perturbados, principalmente de suicidas. A palestrante então destrinchou todo um relato sobre um contato de que se lembra ter feito com Nossa Senhora, a que se referiu como possuidora de profundo amor e carinho pelos homens, e uma ascenção moral tão grande que nos é inimaginável.

Foi no decorrer do relato do encontro com Maria de Nazaré que a palestrante entrou no assunto espinhoso do aborto. O assunto, a mim que sou médico, é de grande interesse, pois como espírita ainda não tinha opinião plenamente formada a respeito do tema, atendo-me apenas à questão ética atual aqui no Brasil que versa sobre duas circunstâncias em que tal ato é permitido: estupro e risco de morte à mãe. Mas segundo a professora espírita, nenhum argumento favorável ao aborto deve ser moralmente aceito pelo espírita, uma vez que sabemos que não existe acaso. Seja da surpresa violenta do estupro ou na tristeza da doença gravídica que possa causar o óbito da mãe, nenhuma dessas circunstâncias acontece àquela mulher sem que antes de sua própria encarnação tivesse havido um minucioso plano divino traçado para o espírito que encarnaria naquela mulher. E a própria circunstância do estupro ou da doença gravídica vem reforçar o processo kármico por que ela passa naquela encarnação.

Então, em termos práticos, nessas duas circunstâncias indesejadas, o que se deve fazer? Esperar. Se houver sido planejado martírio, é porque assim foi traçado o objetivo daquela encarnação da mulher em questão. Assim deveria vir ao mundo aquela criança. Ou então, se não estivesse em planejamento divino a persistência da gravidez e o nascimento daquela criança, o próprio abortamento aconteceria espontaneamente.

Me preocupa que meu texto esteja prolixo e elaborado demais, dificultando o entendimento. O que eu quero dizer é que não há desculpa alguma para abortamento provocado. A mulher é dispõe de certa autoridade por seu próprio corpo, mas não sobre o corpo do outro. Então, no momento da fusão dos dois gametas e da formação da célula-ovo, já há ali um Outro, cuja existência não está autorizado que seja interrompida voluntariamente por uma mulher em hipótese alguma. Crendo nós espíritas em resgates de dívidas, na importância de todo e qualquer ser humano na vida de todos que o circundam, não podemos ceifar a vida do fruto do estupro, pois jamais saberemos se o espírito que naquele corpo encarnará não será até mesmo um importante protetor daquela mulher em tantos possíveis momentos de desgraça em sua vida, ou se aquele espírito vindouro não vem simplesmente para que haja confronto de inimigos antigos, numa nova chance de que haja perdão entre ambos.

Por outro lado, crendo nós na perpetuidade do espírito e na finitude da matéria tão logo nossas metas para a presente encarnação estejam concluídas, devemos entender que mesmo na ocasião de doença gravídica com risco de morte para a mãe, a verdadeira espírita deve perseverar na crença de que, se estiver nos desígnios divinos sua morte decorrente daquela gestação, talvez seja justamente a conclusão de todo um processo kármico necessário para resgate de dívidas passadas ou mesmo para garantir sua evolução moral, nesse gesto de fé.

Enfim, a toda mulher é garantido o direito sobre seu corpo e o que fazer com ele, mas acima disso, é também imputada toda a responsabilidade sobre os atos decorrentes do exercício desse direito. Se engravidou impensadamente, não é irresponsabilidade divina a concepção, e sim sua própria, por não utilizar métodos contraceptivos quando da obtenção de prazer sexual. Abortar é matar um igual, um membro de sua própria família; é interromper o cumprimento da meta espiritual do outro. E não há lei humana que abone esse homicídio.

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